Ela tem 75 anos, 18 filhos, duas viuvez e uma história fatalmente comum a maioria das mulheres deste país.
Olhou pra mim com aqueles olhinhos experientes de quem já contemplou uma tragédia de acontecimentos. Disse que meus sapatos eram bons pra se usar na missa, agradeci e mal tive tempo de me calar, a Dona Fulana me apresentou todo o seu cotidiano, o motivo de usar sapatos fechados, o fato de não gostar da lama do seu bairro, contou-me da roupa a lavar, do terreno a barrer, do cachorro a tratar, do sofrimento a sofrer. Contou-me dos falecidos maridos e me alertou: "Nunca case-se com um bêbado, filha."
Um deles suicidou-se, ela fora acusada do crime - sotaque nordestino, de pele parda e dificuldade em se expressar, "com muito custo eles acreditaram em mim". Cadê seus filhos, Dona? A maioria foi morto de morte matada, outros de doença.
O ônibus chegou, ela se despediu dizendo que sua vida é um romance, "Romance Prepétu".
A partir do dia 20 de novembro ao dia 10 de dezembro, serão 16 dias de ativismo contra à violência as mulheres. São tantas Marias e diversos os tipos de violência, estamos atados, sendo calados por novelas e futebol, fadados ao crime de não poder fazer nada.